Esperança de dias melhores para os cães de Caeté


A criação de uma ONG para cuidar de cachorros abandonados, promover campanhas de castração e de posse responsável para acabar com a superpopulação de cães em Caeté sempre foi um sonho do mecânico Marcos Vinícius de Souza, um caeteense apaixonado pelos animais. Com a omissão do poder público diante da proliferação descontrolada de cães pela cidade e após um episódio trágico em que dois adolescentes atearam fogo numa cadelinha, Marcos convidou algumas pessoas para uma reunião com o objetivo de criar a ONG. Isto foi em abril de 2008 e a boa notícia é que, mais de um ano e meio após esta primeira reunião, o grupo de 15 pessoas que forma a Sociedade Galdina Protetora dos Animais e da Natureza (SGPAN) se mantém firme, coeso e fazendo o possível para atingir seus objetivos, apesar de todas as dificuldades e da falta de apoio do poder público.

O balanço é muito positivo considerando que os membros da ONG conseguiram mobilizar pessoas da comunidade para não só fazer doações como também divulgar as ações da ONG e aderir às campanhas de castração. A primeira foi em março, depois em maio e outra em setembro. No total, 112 cães foram castrados, a grande maioria fêmeas, resultando numa redução, em um ano, de 1.344 crias. A conta é simples: basta multiplicar 112 por 12, que é o número médio de filhotes que uma fêmea procria por ano.

A maioria dos membros da ONG cria cães recolhidos nas ruas. Há um outro grupo de colaboradores que fazem doações mensais à ONG através de carnês. Os recursos doados são usados no pagamento dos custos das campanhas de castração e encaminhamento de cães abandonados e doentes. A ONG tem todas as prestações mensais de suas contas.

A realização das campanhas de castração só é possível porque há uma parceria com a Associação Sabarense Protetora dos Animais e da Natureza (ASPAN), presidida pela protetora Vera Ferreira. A ASPAN já existe há oito anos e tem toda a infraestrutura para a castração (veterinários e medicamentos).

Abrigo, uma necessidade

Devido à inexistência de um abrigo em Caeté, os voluntários da ONG levavam, com muitas dificuldades, os animais recolhidos nas ruas para a Sociedade Mineira Protetora dos Animais, que fica em Belo Horizonte. A SGPAN fez uma parceria com a Sociedade em 2008 mas, desde o final do ano passado, ela não pode mais receber cães de Caeté, pois já está superlotada e, além disso, a continuidade representaria a transferência de um problema que é da cidade Caeté para uma instituição de outra cidade.

A SGPAN vive uma situação limite porque não tem para onde levar os cães que estão doentes e abandonados pelas ruas, além das cadelas prenhes, para que eles recebam um mínimo de atendimento médico, abrigo e comida e para que os filhotes sejam encaminhados para doação já castrados.

            A cidade nunca teve um canil e o Centro de Zoonoses da Prefeitura não tem ações preventivas diante da gravidade da situação de superpopulação de cães, como campanhas de castração em massa e de posse responsável, que são os pilares de uma correta política pública de proteção animal, juntamente com a existência do abrigo. O Centro atua apenas sobre as conseqüências, ou seja, fazendo exames de leishmaniose e eutanasiando os animais cujo resultado do exame é positivo.  

Portanto, a SGPAN precisa de uma parceria com a Prefeitura para a implantação desse abrigo que seria utilizado para o alojamento de cães abandonados, realmente sem donos, com prioridade para os doentes, além das fêmeas no cio e que darão ou já deram cria. Para a SGPAN é necessário também a parceria com a Prefeitura na realização das campanhas de castração e de posse responsável.

 

Poucos recursos e muita determinação

Sem apoio da Prefeitura, sem um carro próprio e com poucos recursos, sobra mesmo é a determinação e compaixão dos membros da ONG. Eles usam carros próprios, tiram dinheiro do bolso e fazem o impossível para ajudar esses animais. Uma vez por mês eles se reúnem na casa de um membro para definições de novas ações e para fazer a contabilidade.

A última novidade da ONG é a realização de uma Feira de Adoção aos sábados, na feirinha da praça de José Brandão. Os voluntários da ONG recolhem os filhotes pelas ruas, ninhadas abandonadas, e os expõem na praça. Mas eles não saem de lá sem antes o novo dono assinar um Termo de Responsabilidade e de ser fotografado com o novo membro da família. Até agora já foram 30 adotados.

Jussara Carvalho, vice-presidente da ONG, é responsável pelo acompanhamento pós-adoção. “Adoção é coisa séria, não é só pegar e levar. A pessoa tem que ter responsabilidade e saber, no mínimo, que o cão vive até 15 anos, precisa de espaço, alimento e cuidados”, afirma Jussara, que recolhe o animal e providencia novo adotante caso a situação do novo lar não esteja de acordo com o acertado.

            O grande desejo dos membros da ONG é ter um abrigo para que se concretizar uma parte do tripé castração, posse responsável e abrigamento dos cães de rua abandonados e doentes. A ONG ainda não tem condições de fazer campanhas, mas espera ter recursos para fazê-las no futuro para que cresça a conscientização para a posse responsável.

Estima-se que a cidade tenha em torno de sete mil cães (dado da Clínica Cães e Companhia), sendo que 1.400 têm donos e recebem cuidados adequados. Dos 5.600 restantes, a maioria tem dono mas fica solta pelas ruas. Uma parte está em situação de abandono total, sofrendo maus tratos, sujeitos à fome, sede, frio, atropelamentos e todo tipo de doença, procriando indiscriminadamente e contribuindo para a situação de superpopulação de cães na cidade, além de serem transmissores de doenças, como a leishmaniose, para os seres humanos.

 

O nome, uma homenagem

A ONG tem o nome de Galdina porque em 2007, em Caeté, dois adolescentes jogaram álcool e atearam fogo numa cadelinha, que sobreviveu sete dias internada e recebeu o nome de Galdina. Os adolescentes foram denunciados e responderam processo. A cadelinha morreu... e deu o nome à ONG que hoje salva tantos outros...

 (Patrícia Dutra - jornalista e voluntária da SGPAN)

SGPAN - Sociedade Galdina Protetora dos Animais e da Natureza de Caeté MG. Entidade sem fins lucrativos